Ministério da Cultura apresenta Bienal do Mercosul

O título da 8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de Geopoética – refere-se às diversas formas sugeridas pela arte de definir o território a partir da geografia, da política, da economia e da cultura. Mais que um tema, a noção de território é uma estratégia de ação curatorial. Artistas, obras e curadores viajarão pelo Rio Grande do Sul em diferentes momentos do projeto, enquanto Porto Alegre, sede da Bienal, também será entendida como território a ser descoberto e ativado. Este blog compartilhará com a comunidade o desenvolvimento do projeto curatorial e novidades da produção da mostra.

Curadores residentes Casa M: Clarissa Diniz
Casa M

Curadores residentes Casa M: Clarissa Diniz

__ 182 dias Atrás

Entre os dias 31 de julho e 6 de agosto de 2011, a curadora e crítica de arte Clarissa Diniz (Recife/Rio de Janeiro) participou do Programa de Residências da Casa M, que ao longo do ano convidou quatro curadores da América Latina a passar uma semana em Porto Alegre, visitando ateliês locais e ativando a programação do espaço. Leia abaixo o relato dessa experiência, nas palavras de Clarissa:

Texto por Fernanda Albuquerque

Se podemos ir a algum lugar para buscar aquilo que já conhecemos, podemos também ser levados pelo lugar e pelos encontros que este nos propõe, modo de estar nos cantos que, ainda antes de chegar a Porto Alegre, entendi que inspirava a Casa M, braço da 8a Bienal do Mercosul que, no começo deste ano, me convidava a participar de seu programa de residências. Se a Casa M se propôs a ser um espaço de encontros e, inclusive, um pretexto para fazer encontrar artistas que passaram a criar juntos, foi também assim que se instalou a residência da Casa M cá comigo, abrindo caminho para que os encontros daquela semana de residência extravazassem os dias previstos para se tornaram – como efetivamente tornaram-se – possibilidades de diálogo e criação que se projetam para diante.

A primeira semana de agosto reverbera, portanto, diariamente, em projetos que hoje partilho com alguns dos gaúchos que conheci através da Casa M, cuja proposta de uma residência livre e pautada  pelo ritmo/desejo de cada curador residente possibilitou conversas aprofundadas, trocas expandidas e, assim, uma oportunidade efetiva de se estabelecer pontes entre indivíduos que ali se conheceram. Almejando fugir sempre que possível à já tradicional – e às vezes inócua – prática de “leitura de portfolios”, estive em ateliês/casas de artistas de diversas gerações, cujos trabalhos caminham por interesses os mais diversos. Tomando chá para aquecer as pontas dos dedos, conversamos sobre seus trabalhos, sobre a produção de outros artistas da região, acerca do campo artístico de Porto Alegre e, principalmente, a respeito das intencionalidades que perpassam cada obra: o que o artista deseja/pensa de seu trabalho no mundo?

Os papos me trouxeram percepções tão variadas quanto diversos são os trabalhos com os quais pude trocar e, se eu venho de um Recife pouco afeito às formas per se, no frio gaúcho estiveram muito evidentes as forças dos planos, das cores (quase sempre chapadas e bastante saturadas), da geometria, do cálculo do corpo no espaço. Configurando um grupo de artistas que se conhecem e porventura trabalham em parceria (como Tiago Giora, Marcos Sari, Juliana Lima, dentre outros), os trabalhos com tais inclinações que pude conhecer estavam quase sempre em relação com o espaço da cidade ou com algum ambiente, numa forma não satisfeita com o espaço pretensamente autônomo da arte, ou da galeria. O desafio do trânsito entre rua e cubo branco, todavia, pareceu-me igualmente claro: para alguns dos artistas com os quais conversei, o difícil parecia ser manter acesa, na galeria, a experiência da forma quando do “deslocamento” dos experimentos realizados no ambiente – desafio igualmente enfrentado por artistas que desenvolvem um trabalho mais “relacional” (como no caso da artista Helene Sacco), cuja densidade escapa às imagens e formas.

É nesse sentido que o registro (ou documento) ganha importância, e mesmo protagonismo. Estive com artistas que construíam cuidadosa e didaticamente uma espécie de “caderno de bordo” do processo de desenvolvimento do trabalho, algo cuja racionalidade se aproxima à de um manual mas que, no decorrer da realização da obra, se tornará também trabalho. Algo desse “método” criativo, ao que parece, foi referido como sendo próprio da formação que se dá em torno do Instituto de Artes da UFRGs, cuja presença claramente esteve posta ao longo das conversas, obras e portfolios dos artistas, muitos deles estruturados homogeneamente, e vários inclusive contendo imagens de obras de outros artistas – seus pares da história da arte – que, no contexto do portfolio, eram colocados como referências. Também em torno da presença do IA na formação de uma jovem geração de artistas de Porto Alegre pude perceber que há outro “método” de criação bastante utilizado, e que se refere à eleição de uma imagem/texto (quase sempre da história da arte/literatura) em torno do qual os trabalhos tecem comentários, ou se estruturam analiticamente.

Assim é que me saltou aos olhos que muitos dos trabalhos com os quais travei alguma relação tenham apresentado “pontos de partida” consideravelmente claros, e bem delimitados, o que todavia não se pode generalizar pois, antagonicamente, também tive contato com artistas que – alguns dos quais alheios ao universo acadêmico – desenvolvem intensamente um trabalho que transborda a noção de “obra”, de “disciplina” e mesmo de autoria, habitando a totalidade da vida/casa/corpo do artista/grupo, como no caso da Avalanche.

Ombreado a muitos artistas – como Michel Zózimo, Fernanda Gassen, Cristiano Lenhardt, Letícia Ramos, Melissa Dullius, Gustavo Jahn, Cristina Ribas, Nara Amélia, dentre outros –, a Avalanche me trouxe a sensação de que, em Porto Alegre (e talvez arredores) seja especialmente presente, na produção dos artistas, o interesse e a exploração de uma estética (e suas tecnologias próprias) próxima àquela dos anos 60/70, evidente na multiplicação de vídeos em Super 8, fotos a partir de filmes antigos (ou que simulam os efeitos de um filme fora da validade), roupas, publicações e outras construções estéticas. A apropriação dessa estética (e de suas técnicas/produtos), discutida também na noite de minha fala pública na Casa M, que me parece característica especialmente presente em Porto Alegre, vem somada à ideia do “faça você mesmo” (do it yourself) e, ao que me parece, remete a uma origem punk (ou do rock) e seu universo gráfico e de vestuário, cena talvez bastante forte na cidade. O “faça você mesmo” se pode vislumbrar também na produção de artistas que subvertem circuitos eletrônicos/materiais acústicos para produzir possibilidades sonoras não ordinárias, ou na cena de quadrinhos/fanzines que acontece na cidade, do que me falou Fábio Zimbres.

De todo modo, a exploração dessas tecnologicas obsoletas e a apropriação de fotografias/filmes/objetos encontrados pela cidade, bem como a referência a formas de sociabilidade/arquitetura que oriundas de outro momento histórico (aspectos presentes em diversos trabalhos dos artistas aqui citados), adverte de um cuidado com o passado que foi a mim colocado em termos afetivos por alguns artistas, como Matheus (Avalanche), para o qual é preciso cuidar do que é transformado num lixo afetivo da história.

A ideia de ficção me saltou aos sentidos como abordagem partilhada – por muitos esses artistas, como também por outros (Brasil afora), como Jonathas de Andrade, Nino Cais, Marcelo Amorim, Sofia Borges – diante desse manancial de materiais/estéticas de outro espaçotempo. Tratada de muitas maneiras, a ficção pode se dar num sentido eminentemente metalinguístico diante da própria arte (penso em Fernanda Gassen), como comentário sobre o conhecimento (como colocado por Michel Zózimo), ou como posicionamento político diante do real e suas invenções. Dos artistas que pode conhecer, em raros casos ela é tratada em si, como nas manipulações digitais de Bruno Borne, que ficcionalizam o espaço, de modo que ficção e política se imbricam de modo criativo na produção gaúcha com a qual pude conversar. Me chamou a atenção como essa forma de política difere, por exemplo, dos modos operados na obra de Vera Chaves Barcellos, cuja obra não me pareceu encontrar consistente ressonância conceitual por entre os jovens artistas gaúchos.

Além da visita a artistas e exposições que ocorriam na cidade, a residência foi permeada por encontros públicos para discutir a ideia de crítica de arte: uma fala pública onde apresentei a revista Tatuí, editada por mim em parceria com Ana Luisa Lima, e uma oficina na qual apresentei experimentos críticos que visavam dar-se para além do texto crítico, às vezes inclusive numa tentativa de escapar ao protagonismo do discurso verbal. Ambas as oportunidades proporcionaram conversas calorosas, penso que marcadas por um desejo de experimentação que mobilizou trocas posteriores ao período da residência, como o projeto de uma revista e pesquisas que têm sido levadas adiante por alguns dos participantes da oficina, trazendo para o Recife e para o Rio de Janeiro o calor daqueles dias frios vividos entre muitas casas, mas sempre no seio da Casa M, cuja dedicada recepção tornou deliciosos e produtivos todos os dias ali vividos.

Clarissa Diniz (novembro de 2011)

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Fundação Bienal do Mercosul
Endereço: Rua Bento Martins, 24, sala 1201 - Centro - Porto Alegre - RS - Brasil
Cep: 90010-080 · Tel/Fax: +55 51 3254-7500 · E-mail: contato@bienalmercosul.art.br
Facebook Twitter

© 2011 - 8ª Bienal do Mercosul Todos os Direitos Reservados

Binario Internet