Notas
Duodecálogo
__ 490 dias Atrás
Para os seguidores deste blog, apresento algumas reflexões sobre o ofício de curar e sobre o modelo Bienal, que ofereço como uma declaração de princípios.
José Roca.
Texto por José Roca
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1.Regras e possibilidades.
Bernard Tschumi dizia em The Pleasure of Architecture: “se você quiser seguir a primeira regra de arquitetura, quebre-a”. Algo parecido poderia ser dito da curadoria. Não há parâmetros aplicáveis em todos os casos, apenas intenções e anseios. É melhor ser consequente com o desenvolvimento do projeto do que consistente com um hipotético dever ser.
2-Uma exposição não é uma enciclopédia.
Ao contrário do enciclopedista, um curador não pode incluir todos os exemplos que ilustram um conceito; somente os que ele encontra e que estão disponíveis. A curadoria cria uma ficção a partir desses fragmentos. Ao reconhecer a impossibilidade de completude, apenas resta tentar evitar a incredulidade do visitante diante de um conjunto de pequenas peças de um quebra-cabeça sem modelo. Como disse Douglas Crimp, citando Eugenio Donato em On The Museum’s Ruins, o museu se baseia na ficção acrítica de que é possível representar o universo a partir de seus fragmentos. Uma exposição cria uma ficção verossímil, ou, pelo menos, uma ficção na qual queremos acreditar.
3-Uma exposição não é uma biblioteca.
Se eu quero ler vou à biblioteca, onde posso informar-me em profundidade, e, além disso, não preciso fazê-lo de pé.
4-Uma exposição não é um arquivo.
Se eu quiser fazer uma pesquisa, vou novamente à biblioteca do ponto anterior. Os arquivos, no contexto expositivo, ou tornam-se pura imagem (o que às vezes está certo, embora não ter acesso aos documentos seja frustrante), ou tornam-se pura retórica curatorial (o que está errado, e também é frustrante).
5-Uma exposição não é um cineclube.
Se quero ver um filme vou a uma sala de cinema, onde fico sentado, há escuridão, e o ruído provém (quase sempre) do que está sendo projetado. Salvo raras exceções, os filmes de longa duração não pertencem ao âmbito expositivo.
6-Uma bienal não é um museu.
O Museu, baseado na ortodoxia da Historia da Arte, aspira à verdade. A Bienal não tem os pés plantados numa montanha de fatos, é pura especulação. Não busquemos à Verdade, apenas a belas meias-verdades, a mentiras com aparência de álibis: verossímeis, úteis, e enfeitadas por um véu de suspeita.
7-Uma bienal não documenta
Se a obra acontece no tempo, ou fora dos limites físicos do espaço expositivo, há que deixá-la viver (e morrer) aí. Nada mais frustrante do que uma exposição que documenta performances, ações, obras efêmeras e obras no território, que se apresentam para nós como um lembrete do que não pudemos experimentar. A menos que tenha sido concebida como obra, ou que tenha um valor contextual especialmente significativo, a documentação pertence ao arquivo, não à exposição.
8-Crônica de uma morte anunciada.
Toda bienal é, de antemão, uma batalha perdida, pois é impossível incluir todos os países, todas as regiões, todos os meios, todas as orientações sexuais, todas as etnias, etc. Não importa o que se faça, sempre alguém fica de fora. Partindo dessa impossibilidade ontológica, aspira-se a um belo fracasso: fracasso que, como bem apontava Harald Szeemann, é uma das dimensões poéticas da arte. Apollinaire dizia que o que a arquitetura deveria pretender era dar ao tempo uma bela ruína…
9-Multiculti.
Coloquem em um container 20 imigrantes recém-chegados de diferentes países e peçam a eles que estabeleçam uma conversa produtiva. Isto é o que almeja uma Bienal. E às vezes consegue.
10-Uma Bienal não é uma Exposição Universal.
Portanto, não deve ter o imperativo de uma representação geográfica equitativa. Tanto mais quando, atualmente, a noção do regional faz, muitas vezes, mais sentido do que uma ideia nebulosa e contestada de nação. Um artista basco se sente bem representando a Espanha em Veneza? A que estado representa um artista de Ramallah?
11-Uma Bienal não deve ser só bienal.
A maior parte das bienais tem a preocupação de fazer um evento espetacular, concentrado no tempo e no espaço e, quando termina a Grande Exposição, entram em uma espécie de hibernação pelos dois anos seguintes. Uma bienal deve encontrar formas de estender sua ação no tempo e assim neutralizar a depressão-pós-Bienal que aflige as cidades que as acolhem; uma forma de fazê-lo entendê-la como uma instância de criação de infraestrutura, estabelecendo pólos de ação que ativem as cenas locais nos períodos em que não há Bienal.
12-Uma Bienal não é uma feira de arte.
Os artistas não devem estar isolados cada um no seu espaço como se fosse um estande de feira comercial. Suas obras devem estar em um diálogo espacial; esse texto resultante é o que denominamos curadoria.
13-Dramaturgia.
Tanto o recinto expositivo quanto o teatro mostram uma obra para um público. Só que no teatro os espectadores estão imóveis. Uma exposição não é uma listagem de obras ou de artistas, e sim uma experiência corporal: a forma como acontece essa experiência no espaço deve ser estudada. Por onde entro? O que vejo? O que escuto? Qual é a conclusão visual de cada movimento? Uma exposição memorável é concebida na mente, se compõe no espaço, e se experimenta com o corpo.
14-Ecologia.
Qual é a pegada de carbono de uma Bienal? Se levarmos em consideração as viagens de artistas e curadores e os materiais utilizados na produção e na montagem, a maioria das bienais não ganhariam uma certificação por sua sustentabilidade ambiental. Embora alguns desses males sejam inevitáveis (nada substitui a relação direta com o artista. Ninguém quer curadores-skype ou curadores-blackberry, que curam de ouvido e não visitam oficinas, etc.) a proximidade com o processo de montagem pode ser responsável e consequente. É necessário abandonar a pretensão de ter sistematicamente um cubo branco para a obra bi e tridimensional e uma caixa preta para os vídeos; cada obra deve ocupar o estritamente necessário para poder ser experimentada sem perda. Não é necessário esconder as estruturas e pintar tudo de branco: a museografia pode ser Brechtiana na sua proposta. Prefiro uma interferência criativa a um diálogo de surdos, cada um na sua torre de gesso.
15-Uma Bienal não é uma feira de tecnologia.
Onde vai ser visto o mais novo, o mais avançado, o nunca visto. Uma bienal, sobretudo no Terceiro Mundo (que geralmente carece de museus com grandes acervos de arte contemporânea ou espaços que exibam a arte de vanguarda), deve apresentar uma mistura de projetos novos e obras existentes. O público local pode apreciar obras importantes que o espectador blasé do mundinho artístico achará batidas. Uma Bienal não é um show de novos talentos, nem o lugar onde os curadores de outras bienais possam vir à caça de talento periférico.
16-Uma bienal não é uma escola de arte.
E não pode ter a pretensão de substituí-la. Mas pode, sim, cumprir um papel muito importante na educação do olhar, que é função dos museus (e uma Bienal é uma espécie de museu temporário). A partir da sua temporalidade, uma bienal pode cumprir a função de familiarizar o público de um determinado lugar com as imagens e discussões da arte daquele momento. A Bienal de São Paulo apresentou em 1953 a Guernica de Picasso, e a cada dois anos tem familiarizado o público paulista com os movimentos artísticos de seu tempo. Uma bienal é um museu temporário que beneficia especialmente a imensa maioria que não pode viajar aos centros da arte. Uma bienal constrói um repertório visual no tempo, um acervo de memórias que são o patrimônio artístico da comunidade na qual se insere.
17-Educar/aprender.
Uma bienal pode tentar transcender a tríade interpretação-mediação-serviço que caracteriza o trabalho educativo em museus envolvendo a ideia do pedagógico a partir da sua própria formulação curatorial. O museu sempre tenta fazer a mediação entre a arte e o público, tenta facilitar essa relação propondo mecanismos que ajudem a compreender o que está sendo apresentado. Mas a arte é, em si mesma, uma instância de conhecimento que nem sempre passa pelo racional: também se aprende com os sentidos. Em alguns casos, uma imagem vale mais do que mil palavras, um som vale mais do que mil imagens, e um aroma vale mais do que mil sons. Não sabemos qual é o dispositivo que desencadeia os processos de conhecimento.
18-Emergência.
No escritório de Diane Karp, diretora do Santa Fe Art Institute, vi uma placa que rezava “Não há emergências artísticas”. O trabalho na arte, por mais importante que o consideremos, não salva vidas (ou talvez o faça de maneira metafórica). Há exposições bem sucedidas cujo resultado faz esquecer que o processo foi uma verdadeira tortura. Isso está errado: na arte, o fim também não justifica os meios. Fazer uma exposição não pode terminar sendo uma experiência angustiante, frustrante ou dolorosa.
19- Responsabilidade.
Uma curadoria não se assina por vaidade, mas sim como se assina um cheque ao portador: uma vez que é público, qualquer um pode cobrar, e o curador deve estar aí para responder.
20- Comunidade.
Exposições são realizadas para que se tenha experiências de vida memoráveis. Entendo a curadoria como a criação de uma comunidade temporária. Artistas e curadores entram em um diálogo que acontece por um convívio prolongado e uma meta mais ou menos comum a todos. Considero exposições de sucesso aquelas das quais saí com amigos íntimos. Não que eu deseje que a bienal seja uma agência matrimonial, mas sem dúvida deve ser um momento de empatia. Quase nunca é possível trabalhar com os amigos; a arte pode oferecer essa possibilidade.
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