Ministério da Cultura apresenta Bienal do Mercosul

O título da 8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de Geopoética – refere-se às diversas formas sugeridas pela arte de definir o território a partir da geografia, da política, da economia e da cultura. Mais que um tema, a noção de território é uma estratégia de ação curatorial. Artistas, obras e curadores viajarão pelo Rio Grande do Sul em diferentes momentos do projeto, enquanto Porto Alegre, sede da Bienal, também será entendida como território a ser descoberto e ativado. Este blog compartilhará com a comunidade o desenvolvimento do projeto curatorial e novidades da produção da mostra.

Entrevista com Fabio Morais
Entrevista

Entrevista com Fabio Morais

__ 326 dias Atrás

A obra do artista brasileiro Fábio Morais trata primordialmente da palavra e da literatura, mas sob a perspectiva de um artista visual. Parece interessar mais ao artista pensar o território e a nação a partir do campo da linguagem do que por definições políticas prévias. As fronteiras invisíveis da linguagem, que se escondem sob o emprego de cada palavra ou frase, em sotaques ou entonações, atravessam os homens mais do que o território no seu sentido geográfico.

Texto por Cauê Alves

CA: Em seu trabalho há uma ênfase nos oceanos. Além do copo d’água feito com mapas de mares, há um livro que você recortou todos os continentes. De onde vem esse encantamento com o mar? Será que tem relação com o fato de ele ser uma espécie de território de liberdade, lugar que não pertence a nenhuma nação?

FM: Sou movido por alguns imaginários e o oceano está no imaginário humano na mesma medida que o espaço sideral. Há nele o inatingível. Mais que não pertencer a nenhuma nação, ele não pertence à humanidade. Mergulhar até o ponto mais fundo do oceano talvez seja tão difícil quanto sair do sistema solar. O máximo que se consegue é enviar câmeras que voltam lotadas de imagens de seres vivos bizarros e desconhecidos. O oceano se protege da curiosidade científica e ao mesmo tempo se impõe à vida humana. Os meios de transporte tiveram nos últimos séculos um enorme aumento de velocidade e melhora de logística. Porém, navegar ainda é lento. Na era da internet e do tempo real, coisas pesadas ainda são transportadas lentamente pelo mar.

Além do território de liberdade citado na pergunta, o oceano funda também micro territórios. Ilhas são sistemas fechados em si, como navios. Uma navegação pode durar semanas, se tornando  um pequeno país flutuante, com tempo hábil para que surja relações pessoais, amizades, intrigas. O isolamento dá ao comandante poderes centralizadores que, a princípio, em terra firme, ninguém tem. Se alguém morre a bordo, o comandante autoriza que o corpo seja jogado ao mar, fato que envolve complexas questões jurídicas, religiosas, éticas. Como se o comandante fosse o mesmo rei absolutista das navegações do século XVI.

Não há como esquecer ainda que nós, americanos, somos frutos da conquista dos oceanos. De algum modo, esse fato deve estar depositado em nosso imaginário arquetípico. É comum quando se está em alguma praia brasileira, de frente para o mar, alguém comentar: ali está a África. Temos a mania de lançar sobre o mar um olhar que o cruza.

Mas, voltando à pergunta, essa ênfase nos oceanos ainda não me fez lidar diretamente com o mar. Uso mapas, atlas, ou seja, a representação gráfica, reduzida à escala humana, do oceano. Por isso encho um copo com água de atlas. Também estão no meu imaginário essas representações que, embora sejam muitas vezes de cunho científico, leio como uma espécie de literatura. Aventuro-me muito mais ao folhear um atlas do que lendo Julio Verne.

CA: O que você acha que pode representar melhor um país, um mapa ou um dicionário?

FM: É uma pergunta difícil. O país do mapa é diferente do país do idioma. O país Brasil é uma questão de desenho, existe dentro de uma configuração política, econômica, histórica e cultural que pode ser destruída com um bombardeio e uma invasão. Já o país Língua Portuguesa é uma questão de linguagem, é uma população espalhada pelo mundo que distingue os verbos “ser” e “estar”, para quem arte é um termo feminino, a quem os verbos já vêm conjugados no sujeito, sem precisar pronunciá-lo, que estabelece relações sociais rebuscadas e cheias de nuances porque a língua é rebuscada e cheia de nuances, que desenvolve uma garganta capaz de pronunciar os sons peculiares do português, que tem todos os códigos à mão para entender poemas como AMOR Humor, de Oswald de Andrade, ou Viva Vaia de Augusto de Campos. Isso não se destrói com um bombardeio. Enfim, não consigo responder muito bem essa pergunta. Mas o país Linguagem me interessa muito mais que o país Político. É difícil saber quantos países Linguagem há no globo. Neste sentido, é possível pensar que a arte contemporânea seja um deles.

CA: A língua e as palavras são matéria prima constante em sua obra. Quais são as fronteiras da língua?

FM: Talvez a língua tenha uma noção diferente de fronteira. Por mais que, ao ir de um país para outro, mude-se de idioma, não penso que esteja aí a fronteira da língua. Mais interessante que verificar que um cidadão francês está em território brasileiro, é perceber que a expressão “par cœur”,  literalmente “pelo coração” ou “de coração” em francês, chegou à língua portuguesa e virou “de cor”, com o mesmo sentido da expressão em francês, de algo que se sabe de memória.  É como o uso excessivo do gerúndio no português falado no Brasil atualmente, como o famoso “vou estar verificando” ao invés de apenas “verificarei”, que decorre do inglês invadindo o português.

Talvez a fronteira da língua não seja visível ou identificável e esteja diluída em seu uso cotidiano. A linha de fronteira da língua portuguesa passa por mim. Abro essa fronteira quando digo que “escaneei” as imagens ou que o gesto foi uma  “blasesice”. Pensando nestes termos inventados por contaminação, já me perguntei porque no português do Brasil há tantos substantivos em tupi, uma das línguas indígenas do país, e não verbos. Talvez porque, historicamente, o modo de vida do brasileiro que fala português não tenha se baseado em gestos e ações indígenas, mas sim europeus. Então, do tupi, o português falado no Brasil abriu sua fronteira mais para os nomes de objetos e coisas, esses sim, emprestados do cotidiano indígena.

Ocorre-me ainda que a literatura, sobretudo a poesia, seja um posto oficial de fronteira que fiscaliza entradas e saídas. E o cotidiano da língua falada seja aquela fronteira no meio da floresta, aberta, por onde passam drogas, armamentos e contrabando.

CA: Há um trabalho seu com um globo em branco e um compasso que traça uma espécie de linha imaginária que se forma conforme o globo gira. Que linhas imaginárias você faria para dividir ou agrupar sua obra?

FM: Tenho trabalhos em desenho, instalação, objeto, livro, vi´deo-instalação, texto, fotografia, etc. Mas tudo isso são apenas palavras, e nesse sentido elas são linhas imaginárias. Servem apenas para localizar, ordenar, organizar, criar eixos. Assim como o Trópico de Capricórnio não existe, creio também que, pelo menos em minha relação com meu próprio trabalho, não existe fotografia ou instalação. Cada obra já nasce na forma que tem e só me dou conta que ela é uma fotografia ou uma instalação na hora de preencher uma ficha técnica. As nomeações são do campo burocrático e museológico. Tudo o que faço é arte visual, pois ela é minha matriz. Tenho vários trabalhos que são texto e em hipótese nenhuma eu os chamo de literatura, eles são arte visual.

CA: Seu trabalho é recheado de ficções e narrativas. Como você compreende a relação entre ficção e nação no trabalho que apresentou na Bienal do Mercosul?

FM: O trabalho é formado por mapas com temas clichês que formam a compreensão oficial que um país tem de si mesmo: mapa físico, geologia, temperatura, chuvas, vegetação, fauna, energia elétrica, uso da terra, indústria química, transporte, população economicamente ativa, turismo, educação, saúde pública, bibliotecas, colonização, fatos históricos, etc. Esses temas podem ser lidos como a narrativa oficial que uma nação conta de si mesma. Uma forma clássica, e talvez ultrapassada, de autobiografia.

O tema “população economicamente ativa” indica que o grande tema das narrativas nacionais é a economia. Nunca vi um mapa com a população intelectual ou sexualmente ativa.  Um outro mapa que uso no trabalho se chama “algumas agressões do imperialismo”, título que já carrega uma narrativa com a ideia de inimigo, domínio e vítima. O fato de haver um mapa da “saúde pública”, ao invés de um com as doenças mais comuns no país, mostra que a narrativa oficial prefere uma visão mais positiva, que mostre a solução e não o problema.

O atlas de um país dificilmente mapeará a prostituição, os circuitos de arte contemporânea, o ateísmo, os tipos de bebidas alcoólicas produzidas, as reais forças do jogo político, as propriedades privadas da Igreja Católica, o índice de inutilidade das Forças Armadas em países que, como o Brasil, nunca entram em guerra ou as rotas dos escravos saídos das fazendas, após a abolição da escravatura no Brasil.  Esses são temas que, embora muito interessantes, não fazem parte da narrativa oficial, que é sempre uma “literatura” com assunto e forma conservadores, para moços e moças.

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