Ministério da Cultura apresenta Bienal do Mercosul

O título da 8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de Geopoética – refere-se às diversas formas sugeridas pela arte de definir o território a partir da geografia, da política, da economia e da cultura. Mais que um tema, a noção de território é uma estratégia de ação curatorial. Artistas, obras e curadores viajarão pelo Rio Grande do Sul em diferentes momentos do projeto, enquanto Porto Alegre, sede da Bienal, também será entendida como território a ser descoberto e ativado. Este blog compartilhará com a comunidade o desenvolvimento do projeto curatorial e novidades da produção da mostra.

Entrevista: Mayana Redin
Entrevista

Entrevista: Mayana Redin

__ 182 dias Atrás

Os desenhos de Mayana Redin sobrepõem cartografias, lugares e paisagens. Como composições metafísicas, parecem dirigir-se a outra realidade, exterior ao tempo e à história. Mares, montanhas, ilhas, buracos negros, vales e penhascos são alguns dos elementos que integram suas imagens.

Texto por Fernanda Albuquerque

A pergunta “E se fosse possível?” parece estar na origem dos trabalhos, como na videoinstalação Horizonte alheio (2009), que aproxima o olhar de duas pessoas separadas por um oceano. Na entrevista a seguir, a artista conversa seu processo de criação e sobre os interesses e conceitos que alimentam sua obra.

Encontro entre Mar Negro, Mar Vermelho e Mar Amarelo (2010-2011)

Teus trabalhos quase sempre criam geografias fictícias, encontros impensados entre diferentes paisagens. Há uma dimensão utópica nessas criações? Como vês isso?

Penso que a dimensão utópica aparece em diversas ações, inclusive naquelas mais invisíveis, e acho que aqui incluímos toda expressão que se vale da criação de uma maneira nova (ou pelo menos na tentativa dela) de ocupar o mundo. Eu acho que sim, há uma dimensão utópica no processo desses trabalhos, e acho que ela aparece através da ficção, no nível do invisível ou do “desimportante”, para voltarmos à idéia da utopia. A utopia não está naquilo que é pensado para ser possível de executar no concreto, talvez seja justamente o contrário. Daí da ficção ser uma alternativa poética, mas também política da vida.

A cartografia é um recurso recorrente nas tuas obras. Como surgiu esse interesse?

O uso da cartografia nesse e em outros trabalhos está diretamente ligado ao meu interesse pelo desenho. O desenho pra mim é aquele componente utópico que diz que “é possível”, mesmo que o projeto não seja executável. Acho que o desenho como projeto é antes de tudo a possibilidade de pensar o impensável, como você disse antes, a força dele está nisso. A cartografia é um pouco isso, se a considerarmos desenho. Muito por isso os desenhos da série estão com as escalas completamente subvertidas. O interesse é antes transformar a função cartográfica de uma escrita dos terrenos para o desenho do impossível. O outro interesse pela cartografia vem da idéia de representação do mundo, – que é o tema clássico da arte -, porém usado em outras disciplinas e que aqui quis trazer pro campo artístico, sem a função científica.

Entroncamento encontra Encruzilhada (2010-2011)

Na série Geografia de Encontros (2010-2011), que apresentas na 8ª Bienal, as aproximações entre lugares respondem a características variadas, como aspectos geográficos, históricos, políticos, desenho cartográfico, nome dos locais, etc. Como defines cada encontro?

Os desenhos foram feitos a partir da criação de regras de aproximação por coincidências entre lugares do mundo. Como comecei a série quando estava morando em Portugal, os primeiros desenhos tinham a ver com lugares de lá e do Brasil. Foi o caso do encontro entre a Foz do Rio Amazonas e a do Rio Tejo, entre Entroncamento (Portugal) e Encruzilhada (Bahia), e entre Lagoa, Ribeira Grande, Rio Maior (PT) e Feliz Deserto (BR). As coincidências semânticas têm a ver com os nomes. É o caso do encontro entre os Mares Vermelho, Amarelo e Negro, entre as Ilhas Decepção e Desolação, entre Portalegre-RN e Porto Alegre-RS e entre o Cabo da Boa Esperança e Cabo das Tormentas, lugares que mudaram de nome por causa de sua história. As coincidências geográficas e geopolíticas têm a ver com características físicas e políticas dos lugares, como o encontro entre o Monte Everest e o Mar Morto, respectivamente a maior altitude e a maior depressão, o encontro entre a Bacia Amazônica e o Deserto do Saara, entre as fronteiras políticas do Novo México (EUA) e de Al Kufrah (Líbia), entre Mônaco e Rússia, o menor e o maior país do mundo, e o encontro dos países sem mar e das cidades enclave brasileiras. E as coincidências formais tem a ver com aproximações da representação cartográfica dos lugares, como o encontro entre as Ilhas Gregas e o decalque de uma chuva na janela, e o encontro entre o Estreito de Gibraltar e o Istmo do Panamá. Fora isso, em Implosão de Portugal e Fuga de Lesoto, propus um deslocamento ficcional de territórios. É claro que essas categorias acabam por se contaminar, elas não são fixas, e tentei sugerir isso na montagem no cais. Há desenhos que têm sua força maior na aproximação formal, mas além disso podem ser interpretados politicamente, como é o caso do encontro entre o Estreito de Gibraltar e o Istmo do Panamá, que são, formalmente, um o contrário geográfico do outro, mas também lugares importantes politicamente, porque são passagens entre territórios. É assim com Fuga de Lesoto, com o encontro entre os Cabos… Aliás, podem existir dados referentes a alguns lugares que sequer eu tenha conhecimento, que alguém pode incluir na própria interpretação… Podem inclusive não ser percebidos, e aí vale a “independência” do desenho, não é?

Cabo da Boa Esperança encontra Cabo das Tormentas (2010-2011)

Na série, as linhas que delimitam territórios têm sua função subvertida. De algum modo, também sugerem que as fronteiras são ficções?

Sim, a série começou a partir dessa percepção, de ver certos sistemas do mundo sendo definidos a partir de arbitrariedades e decisões que lidam com o abstrato, mas são levadas para o concreto. Curiosamente isso se faz muito na poesia, na literatura, na arte. Me surpreendo com esses sistemas de classificação e organização do mundo que podem ser tão ficcionais quanto um trabalho artístico. A criação de estados e países, assim como certas decisões urbanísticas de determinadas cidades baseadas puramente em reuniões políticas são de uma ficção que beiram o artístico, o literário, a meu ver. Aí entra toda a gama de órgãos e departamentos, documentos e atestados para assegurar a concretude dessas decisões… É só lembrar dos cartórios e tabelionatos, os órgãos máximos da ficção.

O trânsito entre diferentes lugares e a convivência com distintas paisagens têm marcado não apenas o teu trabalho, mas também a tua vida nos últimos anos. Algumas obras, como Horizonte Alheio (2009), parecem responder de forma mais direta a essa situação. Vês relações entre as experiências de morar em Portugal e agora no Rio de Janeiro e a tua produção recente?

Isso aconteceu de forma visível quando me mudei para Portugal, tanto que o país entrou afetivamente em vários trabalhos… O deslocamento faz você perceber diferenças no entendimento da passagem do tempo, da dimensão do espaço físico, no espaço do corpo e na linguagem de cada cultura. As percepções se alteram, é a coisa mesmo do estrangeiro.  Além do mais, quando você adentra nos sistemas de cada lugar, você experimenta as coisas com mais espanto que na sua cidade ou país. Isso amplia a capacidade de perceber aquelas ficções que comentei antes e às vezes essas coisas vazam para criação artística. Aqui no Rio é diferente de Portugal, ainda tem uma coisa de estar muito próxima de casa por conta da língua e da cultura brasileira. Mas obviamente é muito diferente, e isso influencia bastante a produção, seja pela cidade em si, seja pelas influências do campo da arte local.  Quando passei 13 horas dentro do avião para Portugal, sobrevoando o Oceano Atlântico, isso pra mim foi o começo da ficção, aquele era concretamente o lugar onde ninguém pertencia a território nenhum, a não ser ao “território do avião”. A impressão era que subitamente os passaportes dos viajantes ficavam todos “em branco” durante a viagem. E eu estava ali, separada por alguns centímetros de um espaço inabitável para o homem e que só era possível graças ao avião, aquele território de lata. A ciência é uma disciplina que também trabalha com criações de verdades baseadas em abstrações. Enfim, o deslocamento gera matéria e resíduos sempre, em vários campos da vida.

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