Ministério da Cultura apresenta Bienal do Mercosul

O título da 8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de Geopoética – refere-se às diversas formas sugeridas pela arte de definir o território a partir da geografia, da política, da economia e da cultura. Mais que um tema, a noção de território é uma estratégia de ação curatorial. Artistas, obras e curadores viajarão pelo Rio Grande do Sul em diferentes momentos do projeto, enquanto Porto Alegre, sede da Bienal, também será entendida como território a ser descoberto e ativado. Este blog compartilhará com a comunidade o desenvolvimento do projeto curatorial e novidades da produção da mostra.

RELATO DE VIAGEM: CUBA
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RELATO DE VIAGEM: CUBA

__ 431 dias Atrás

Apesar das dificuldades econômicas por que passa Cuba a produção artística da ilha é surpreendentemente rica. É impressionante a sofisticação intelectual dos artistas e também do cidadão em geral. Todos são muito bem preparados, com formação sólida e com uma prática bem desenvolvida. Mesmo artistas jovens possuem traquejo, além de um portfólio amplo que revela [...]

Texto por Cauê Alves

Apesar das dificuldades econômicas por que passa Cuba a produção artística da ilha é surpreendentemente rica. É impressionante a sofisticação intelectual dos artistas e também do cidadão em geral. Todos são muito bem preparados, com formação sólida e com uma prática bem desenvolvida. Mesmo artistas jovens possuem traquejo, além de um portfólio amplo que revela vivência na área e certa maturidade. Depois de conhecer dezenas de artistas, sai com a sensação que vi apenas uma pequena parte da efervescente cena artística cubana.

Sem dúvida a Bienal de Havana, que em 2012 irá para a sua 11ª edição, tem responsabilidade na formação do repertório dos artistas e na internacionalização da arte cubana. Durante minha estadia em Havana, pude contar com o apoio do Centro de Arte Contemporânea Wifredo Lam, que organiza a Bienal de Havana, e com a ajuda da curadora Ibis Hernández Abascal.

A primeira visita que fiz em Cuba foi ao LASA,  Laboratório Artístico de San Agostín, dirigido pelo artista cubano Candelario e pela curadora francesa radicada na ilha Aurélie Sampeur. San Agostín é um bairro do município La Lisa, na periferia de Havana, onde vivem 35 mil pessoas. Trata-se de um lugar em que praticamente não há atividades culturais e por isso o papel do LASA é tão relevante para a ativação dessa região. É um espaço de experimentações artísticas multidisciplinares, em que se explora o sentido de pertencimento ao espaço e discute identidade e território. O LASA promove residências de artistas e possui projetos ambiciosos para a região, como a construção de um Museu de Arte Contemporânea. Já está em fase final a construção de uma galeria subterrânea para se mostrar projetos realizados pelo Laboratório.

Candelario e integrantes do LASA

Em Havana me reuni com Dalila López, coordenadora geral do projeto independente Batiscafo. As atividades que Batiscafo desenvolve em Havana são muito importantes na cena local e para o intercambio de Cuba com o mundo, ainda mais porque a comunicação de Cuba com outros países por internet é muito restrita. Batiscafo não possui uma sede, um espaço físico, mas promove atividades em vários locais da cidade. Ele é sobretudo um projeto de residências internacionais liderado por artistas. O programa existe desde 2003 e cresceu muito, promovendo falas, palestras, performances, exposições temporárias e intervenções urbanas.  É um campo realmente independente na cena demasiadamente institucional e estatal de Havana. Mas Batiscafo está num momento de crise porque o financiamento internacional acabou e por isso alternativas precisam ser construídas.

Tive a oportunidade de conhecer em Havana outro projeto, chamado Circo, que nasceu dentro do Batiscafo, também em 2003, mas que acabou se desenvolvendo a parte. Quem coordena o Projeto Circo é Ada Azor, uma figura muito ativa que consegue fazer bastante coisa com muito, mas muito poucos recursos. Ela inicialmente fez um projeto com uma lona de circo que percorreu algumas cidades de Cuba com performances que tinham relação com o universo circense. Em seguida começou a promover festivas de performance, fez um projeto de performance num hospício e agora realiza mostras de vídeo. Ela sempre consegue algum financiamento no exterior. Circo é um projeto nômade conectado com a produção jovem e uma plataforma para a arte contemporânea cubana. Imagino que se Ada Azor estiver conectada a internet, o que ela não consegue fazer muito em Havana devido ao preço absurdo e a lentidão da conexão, ela é capaz de fazer muito mais, mobilizando artistas de todas as partes e formulando uma programação gigante e consistente.

Um artista bem interessante que visitei em Havana foi Reynier Leyva Novo. Assisti um trabalho seu em vídeo chamado “O patriota invisível” em que a melodia de “La Bayamesa”, de 1867, o hino nacional cubano escrito por Perucho Figueredo, é modificada. O artista transforma os tempos, as pausas e retira o tom de combate da marcha. A música que está na origem da nação cubana sofre em seu trabalho uma desconstrução total, uma modificação em seu rumo, como a própria história de Cuba. Novo possui também trabalhos gráficos com iconografia cubana e projetos em que elabora odores da guerra, feitos a partir de lugares onde ocorreram batalhas importantes na formação do estado cubano.

Trabalhos de Reynier Leyva Novo

Adonis Flores, artista que serviu o exército e lutou na Guerra Civil de Angola, me mostrou seu trabalho ao mesmo tempo forte e bem humorado, geralmente realizado a partir dos símbolos do exército. Ele trabalha também com manipulação de imagens, performances e ações urbanas. Entre seus trabalhos destaca-se um vídeo em que ironicamente o artista frita dois ovos sobre a chama eterna das estrelas em homenagem aos heróis nacionais. O vídeo foi feito numa espécie de memorial da revolução, justamente com um símbolo nacional de Cuba, e aborda o fato de os símbolos de virilidade masculina, próprios do exercito, estarem em cheque, literalmente fritos.

Grethell Rasúa é uma artista que lida diretamente com categorias estéticas como o belo e o feio e suas relações com os valores morais. Ela realizou um trabalho interessante com comunidades pobres que vivem de modo precário em construções sem pintura em favelas de La Lisa. Trata-se não de um trabalho relacionado à identidade e ao pertencimento ao lugar. Ela inventou uma receita em que mistura 30% de verniz e 70% de excrementos humanos, o que elimina o cheiro forte, para pintar barracos de madeira. Cada barraco é pintado com as fezes de seu próprio dono.

DUAL, de Grethell Rasúa

A dupla de artistas Celia-Yunior, da mesma geração de Rasúa, possui dezenas de trabalhos, e me mostrou um vídeo chamado Bojeo que lida diretamente com a noção de território. No vídeo o casal percorre todo o litoral de Cuba por telefone, ouvimos os artistas ligando aos hotéis e pedindo descrições das paisagens, enquanto vemos fotos de lugares turísticos de outra ilha, a de Trinidad y Tobago. Esse vídeo foi feito num momento em que os Cubanos eram proibidos de entrar em hotéis de seu país e claro proibidos de sair.

Still de Bojeo, de Celia-Yunior

Há um filme de Celia-Yunior que aborda o mesmo tema pelo avesso, fala da situação de um cidadão sem nacionalidade, sem território, alguém que não existe em seu País depois de regressar a ele. Essas pessoas foram apagadas dos arquivos oficiais e somem aos olhos do Estado. O vídeo, “Sem título”, não tem imagem ou som e alude a esse espaço e tempo indefinido dos indivíduos desterritorializados, que vivem como fantasmas em seu próprio país.  Celia-Yunior, Grethell Rasúa, ao lado de Javier Castro, Renier Quer e Luis Gárciga fazem parte do mesmo grupo. Seus trabalhos podem ser vistos no site El marcador de libros.

Dentre eles Luis Gárciga, artista de uma geração mais velha, possui uma obra bem interessante. Ele tem uma produção vasta, além de um discurso articulado e recheado de referências teóricas. Um de seus trabalhos mais instigantes se aproveitou da relativa imunidade da arte para conseguir que alguns objetos como sapatos atravessassem fronteiras. Ele sugeriu que por meio do transporte de obras de arte, proporcionar com que familiares de cubanos que vivem no Brasil possam enviar algum produto para seus parentes. Os parentes seriam convocados por algum anúncio no jornal. A obra sairia de Cuba embalada para Porto Alegre, na verdade são caixas com sapatos velhos, por exemplo, mas podem ser celulares antigos, e retornaria depois da exposição com os produtos novos, enviados por parentes, que o artista se encarrega de entregar. No espaço ele monta uma instalação com imagens, recados e os objetos. É um trabalho que lida diretamente com fronteiras e com dificuldades de alfândega.

Still de Las huellas de mi deseo, de Luis Gárciga

Outra dupla de artistas, Meira Marrero e José Toirac, também possui um conjunto de trabalhos muito interessantes que tratam da ideia de nação. Toda a obra deles parece trabalhar com a história, com a desconstrução da história de Cuba a partir de símbolos nacionais. Entre eles está um vídeo bem bonito que mostra uma imagem do cavalo de José Marti correndo, sem rumo, depois que o cavaleiro foi assassinado. Ao longo do vídeo, que é retirado de uma construção histórica, de uma ficção baseada em fatos reais, a tela fica com a predominância das três cores, uma por vez, da bandeira de Cuba, as cores da revolução francesa. É também uma espécie indireta de homenagem a Delacroix. Outro trabalho bem interessante da dupla Meira/ Toirac chama-se “Opus”. Trata-se de um único discurso de Fidel editado em que apenas aparecem os números na tela e a voz de Fidel os pronunciando. É uma definição da nação por meio de estatísticas. Uma estratégia muito usada pelo governo para mostrar como a nação está bem, assim como os principais feitos da revolução. Desses mesmos artistas há um trabalho chamado Galeria dos ex-presidentes, que são pinturas de todos os presidentes de Cuba de 1969 até 2006, mostrados como personagens históricos e um prego na parede esperando a colocação do próximo retrato. A obra não foi mostrada em Cuba porque Fidel não pode estar na mesma linha dos outros presidentes, ele oficialmente precisaria ter um destaque.

"Cuba: 1869-2006", de Meira e Toirac

Um artista bastante conhecido em Cuba, mas também reconhecido internacionalmente, que pude visitar foi Ibrahim Miranda. Ele possui uma vasta obra em serigrafia e xilogravura sobre mapas. Há também uma série de mapas apropriados pelo artista onde ele desenha animais a partir da seleção de territórios. Não há uma relação direta entre os desenhos e os lugares que o mapa representa, mas Miranda criou um vocabulário próprio de formas e símbolos.

Mapa de Ibrahim Miranda

Visitei ainda artistas que não necessariamente possuem uma poética próxima ao tema da Bienal, como por exemplo, Duvier del Dago, que tem desenhado com linhas tridimensionais objetos que são sonho de consumo em Cuba, mas que são inacessíveis. As linhas brancas são iluminadas com luz negra e produzem um efeito deslumbrante. Ao mesmo tempo os objetos aparecem vazados e quase invisíveis.

Lazaro Saavedra é também um artista importante, ele já possui um lugar garantido na história da arte cubana e uma capacidade de atualização incrível. Esteve presente na 7ª Bienal do Mercosul. Sua obra tem um humor muito próprio e geralmente ele faz comentários espirituosos sobre a realidade local em caricaturas ou vídeos que tratam, entre outros temas, da vigilância mútua onipresente em Havana. Atualmente está trabalhando com obras de correio eletrônico.

Pude encontrar também com os jovens artistas Jenny Brito e Reinier Nande.  Jenny possui um vídeo bem interessante em que o mapa de Cuba desenhado sobre uma batata vai desaparecendo enquanto o legume é descascado. Reinier possui vários trabalhos de animação e uma série interessante chamada “Silhueta oculta” em que o público é convidado a revelar palavras escondidas sobre a tela de pintura.

Em meu último dia visitei a Faculdade de Artes Visuais do Instituto Superior de Arte (ISA), em Havana, onde conversei com os professores Ruslán Torres, Jorge Wellesley e Fidel Álvares que me mostraram suas pesquisas. Recentemente publicaram o livro “08 Espacio de Experimentación Visual”, que documenta o trabalho deles. Tive contato também com um grupo muito interessante de alunos, Projeto de Sítio, que fizeram ações urbanas contundentes como a , ocasião em que fecharam para estrangeiros a Praça da Catedral, lugar tipicamente turístico de Havana Velha. Foi uma ação coletiva bem organizada que surgiu justamente do fato de os cidadãos cubanos, devido ao preço absurdo do que se comercializa em lugares turísticos, não possuírem acesso a grande parte da cidade.

Ação Brigada Intramuros

Havana parece ser divida em ao menos duas. A cidade cenográfica e glamorosa para estrangeiros e a dura realidade do cubano. A economia e a moeda também refletem essa divisão. Há a moeda do cidadão comum que tem um valor irrisório e o CUC, peso convertido cubano, moeda paralela que tem quase o mesmo valor do euro para turitas. Entretanto, muitos itens básicos são apenas vendidos em peso convertido, o que gera uma situação contraditória. A arte cubana, de modo geral, explora muito bem as contradições locais. Ela está atenta ao que se passa em seu território e, apesar das dificuldades de comunicação, está conectada às manifestações mais atuais da arte contemporânea internacional. Os artistas, apesar de todos os problemas cotidianos, transitam de modo bem crítico entre esses dois mundos tão distintos.

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