Ministério da Cultura apresenta Bienal do Mercosul

O título da 8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de Geopoética – refere-se às diversas formas sugeridas pela arte de definir o território a partir da geografia, da política, da economia e da cultura. Mais que um tema, a noção de território é uma estratégia de ação curatorial. Artistas, obras e curadores viajarão pelo Rio Grande do Sul em diferentes momentos do projeto, enquanto Porto Alegre, sede da Bienal, também será entendida como território a ser descoberto e ativado. Este blog compartilhará com a comunidade o desenvolvimento do projeto curatorial e novidades da produção da mostra.

Relato de viagem: Panamá
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Relato de viagem: Panamá

__ 427 dias Atrás

Conhecer uma cidade em quatro dias é uma empreitada tão pretenciosa quanto impossível. Conhecer a sua cena artística, então, no mínimo improvável. Não foram exatamente esses os objetivos que me levaram à capital panamenha no final de janeiro.

Texto por Fernanda Albuquerque

A ideia era pesquisar artistas cujas investigações pudessem interessar à 8a Bienal. Mas se desbravar um lugar em tão pouco tempo é impraticável, também é inevitável não tentar de alguma forma compreendê-lo. O viés da pesquisa – artistas trabalhando com temas como território, nação, identidade, língua, fronteiras, migração, colonização, etc – foi particularmente rico nesse sentido, pois me levou a artistas profundamente interessados em seu lugar. Para fazer um mapeamento inicial, contei com a preciosa ajuda de críticos e curadores que vêm trabalhando na região, como Emiliano Valdes, Magali Arriola, Rosina Cazali Escobar, Marivi Véliz e Papus Von Saenger, e também Johann Wolfschoon, Walo Araujo, Monica Kupfer e Adrienne Samos, que vivem na capital panamenha e, além de sugerirem artistas, puderam me acompanhar na visita a alguns espaços da cidade.

Dois aspectos me chamaram a atenção na produção recente. Por um lado, a preocupação com a enorme transformação que o país – e a Cidade do Panamá em especial – vem sofrendo nos últimos dez anos, após a retomada da Zona do Canal. E por outro, o interesse pela complexa relação que o Panamá mantém com a cultura – e a presença – norteamericana.

Vista da cinta costera e Punta Paetilla, tirada em frente ao hotel onde fiquei hospedada

De fato, a explosão imobiliária da capital panamenha é visível não só nas ruas, tomadas por moderníssimos arranha-céus e por uma quantidade impressionante de prédios em construção, mas também nos ateliês. A situação é material de trabalho para boa parte dos artistas que visitei, como Pilar Moreno e seus Cuentos Chinos (2009), uma série de desenhos em que a artista faz referência à criação da cinta costera, uma grande autopista à beira mar. Alardeada pelas autoridades como um «pulmão para a cidade», a avenida previa um projeto urbanístico voltado ao lazer, com jardins, áreas de descanso, ciclovias, canchas de esporte e um grande anfiteatro. Como nada disso se cumpriu, a empreitada transformou-se em verdadeiros «cuentos chinos» – ou o que chamamos de «conversa pra boi dormir» –, promessas que a artista retrata em meio a personagens chineses e aos enormes edifícios que dominam a região.

Cuentos Chinos (2009), de Pilar Moreno

O mesmo contexto de transformação serve de ponto de partida para a instalação desenvolvida por Ramón Zafrani para a 8a Bienal do Panamá, em 2008. Arquiteto de formação, o artista resgatou peças de casas demolidas na Zona do Canal para compor maquetes de suntuosos arranha-céus, reconstruindo a cidade a partir de suas ruínas. Já em seu projeto mais recente, o artista apropria-se de anúncios publicitários de condomínios residenciais para subverter suas promessas de luxo, conforto e felicidade, inserindo imagens de «pequenas catástrofes» nos cenários retratados.

Instalação desenvolvida por Ramón Zafrani para a 8a Bienal do Panamá, em 2008 (detalhe)

A voracidade do consumo e do descarte por trás de processos como a remodelação da capital panamenha e a conflituosa relação do homem com o seu meio são temas recorrentes também na obra de Donna Conlon, norteamericana radicada no país. Em Espectos Urbanos (2004), a artista reconstrói o skyline de Punta Paetilla, símbolo da renovação da cidade, com objetos encontrados na rua. A precariedade e o colorido das formas contrastam com o luxo e a austeridade dos edifícios.

Espectros Urbanos (2004), de Donna Conlon

Já em (Video) Juegos (2008-2009), série de vídeos realizados em colaboração com Jonathan Harker, peças encontradas em ruínas de casas demolidas são usadas como fichas e tabuleiros de jogos imaginários. Disputas cujas regras e objetivos são mantidos insondáveis.

(Video) Juego #1 (2008), de Donna Conlon e Jonathan Harker

A ironia e o bom humor são recursos comuns a boa parte desses trabalhos, como também é o caso na série de cartões postais desenvolvidos por Harker para o Panamá. «Siempre avanzando», «Tierra de aventuras» e «Puente del mundo, corazón del universo» são alguns dos dizeres que acompanham os inusitados retratos do artista em cenários que aludem aos «apelos turísticos» do país.

Postais do Panamá (2001-2011), de Jonathan Harker

Em Destablishing Shots (2007), por sua vez, o artista apresenta uma sequência de planos fixos de casas e edifícios panamenhos alterados digitalmente. A simetria das imagens, aqui e ali quebrada por um detalhe da fachada, revela uma paisagem perturbadora, onde desordem e controle convivem em suposta harmonia.

É claro que este é apenas um recorte da produção desses artistas. Trabalhos que apontam para a complexidade de um país que até dezembro de 1999 tinha parte do seu território – a mais rentável e estratégica – governada pelos Estados Unidos. Durante quase um século, a Zona do Canal, faixa de terra que compreende 16 km às margens da passagem interoceânica, funcionou como uma espécie de capital paralela. Totalmente planejada e construída sob o conceito de «cidade jardim», a área onde viviam os chamados zonians é retratada por José Castrellón na série de fotografias Zoned Out (2008). As imagens, que revelam os locais onde os jovens habitantes da Zona do Canal costumavam se divertir, não deixam de sugerir a estranheza e melancolia de um lugar mantido ao centro e ao mesmo tempo à margem de um país por quase cem anos.

Zoned Out (2008), de José Castrellón

A Zona do Canal também é enfocada em trabalhos recentes de Enrique Castro Ríos, como no vídeo Memorias del Hijo del Viejo (2003), que combina imagens e informações da vida pessoal do artista com elementos sobre a história do Panamá – estreitamente vinculada à construição da passagem marítima. Já a instalação Naciones Moebius (2006) tem como ponto de partida o projeto de ampliação do canal e os enormes conflitos decorrentes da empreitada, como os prejuízos ambientais, o investimento que as obras significam para o país e a necessidade de desalojar milhares de campesinos.

Naciones Moebius (2006), de Enrique Castro Ríos

A história panamenha também está na base do trabalho desenvolvido por Abner Benaim para a 8a Bienal do Panamá. Un Chino y un Burro (2008) presta homenagem aos «mártires» da separação do país da Colômbia, em 1903, que abriu caminho para que os Estados Unidos dessem início à construção do canal. Esculpidos em bronze em tamanho real, um burro e um chinês foram de fato as únicas vítimas acidentais do processo – constituído muito mais como um negócio, como lembra Abner, do que como uma luta por independência. Mais recentemente, o artista vem trabalhando em um documentário sobre a invasão dos Estados Unidos ao Panamá, em 1989, apelidada pelo exército americano de Just Cause (justa causa). A ideia é coletar depoimentos de pessoas comuns, mesclando histórias pessoais à memória do país.

Un Chino y un Burro (2008), de Abner Benaim

Além de visitar artistas, reservei um tempo para conhecer alguns espaços da cidade, como o Museu de Arte Contemporânea, onde desde 1992 acontece a Bienal do Panamá. Fundamental para a difusão da arte contemporânea no país, a iniciativa teve a sua 8a edição em 2008 e atualmente passa por um período de reformulação, segundo os diretores Walo Araujo e Monica Kupfer. Foram eles que me acompanharam na visita ao museu, onde vimos a exposição 00-10: Cuenta Progresiva, curada por Reinier Rodriguez. Voltada à produção panamenha dos últimos dez anos, a exposição me permitiu rever muitos dos artistas que havia pesquisado e conhecer outros tantos, nem sempre conectados com uma linguagem contemporânea. Ainda assim, foi uma ótima oportunidade de conhecer o trabalho de artistas como Gustavo Araujo, Ramsés Giovanni e Rachelle Mozman.

Vista da exposição 00-10: Cuenta Progresiva, em cartaz no Museu de Arte Contemporânea

Já no Diablo Rosso, a mostra Complemental, organizada pelo arquiteto Johann Wolfschoon, um dos coordenadores do espaço, apontava cinco outros artistas considerados imprescindíveis para a arte da última década. Uma bela seleção de trabalhos – com destaque para os vídeos de Brooke Alfaro e Abner Benaim e a peça sonora de Humberto Velez –, que me possibilitou um olhar mais amplo à produção dos últimos anos. O espaço, aliás, parece estar trazendo uma boa dose de oxigênio à cena local. Criado em 2006, ele hoje ocupa uma antiga casa no Casco Viejo, bairro histórico da cidade. Além da sala expositiva, onde são organizadas mostras mensais, o Diablo conta com uma loja de arte, moda e design e um simpático restaurante, onde acontecem conversas, apresentações artístiscas e projeções de filmes.

Vista do espaço Diablo Rosso, no Casco Viejo

Há poucas quadras dali está o recém inaugurado Los del Patio, também localizado em um antigo casarão. Coordenado pela artista Yiyi Barra – que por quase três anos manteve um projeto semelhante, o La Casona –, o espaço conta com salas expositivas, um local para oficinas, um café, uma loja e um espaçoso pátio interno que dá nome ao local. Em cartaz na época, a série de (Video) Juegos, de Conlon e Harker, mostra que abriu o espaço.

Conversa sobre a Bienal do Mercosul no Los Del Patio

Uma das últimas atividades da viagem foi justamente participar de uma conversa no Los del Patio, em que falei da Bienal do Mercosul e sua relação com Porto Alegre e a cena artística local. Interessante perceber a curiosidade do público e o desejo que eu mesma vinha experimentando aqueles dias de compreender, ainda que com a ponta dos dedos, uma realidade tão diferente.

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