Ministério da Cultura apresenta Bienal do Mercosul

O título da 8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de Geopoética – refere-se às diversas formas sugeridas pela arte de definir o território a partir da geografia, da política, da economia e da cultura. Mais que um tema, a noção de território é uma estratégia de ação curatorial. Artistas, obras e curadores viajarão pelo Rio Grande do Sul em diferentes momentos do projeto, enquanto Porto Alegre, sede da Bienal, também será entendida como território a ser descoberto e ativado. Este blog compartilhará com a comunidade o desenvolvimento do projeto curatorial e novidades da produção da mostra.

Relatório de Viagem: Paraguai
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Relatório de Viagem: Paraguai

__ 458 dias Atrás

Cerca de 510 mil pessoas vivem na capital do Paraguai. Apesar de não ser uma grande metrópole, Assunção possui uma vida cultural instigante.

Texto por Cauê Alves

Entre os principais espaços para as artes visuais está o Centro Cultural de España Juan Salazar, que ganhou esse nome em homenagem ao capitão espanhol que fundou Assunção em 1537. O Centro Cultural possui também uma rica biblioteca e uma variada programação. Outro espaço relevante é o Centro Cultural de La Ciudad, onde funciona o Museo Memoria de La Ciudad num prédio colonial do centro histórico de Assunção.  A principal instituição que se dedica às artes visuais na cidade é o Museu del Barro, que possui uma coleção de arte popular, arte sacra, indígena e o Museo de Arte Contemporâneo. Nele funciona também a sala de exposições temporárias da Fundação Ricardo Migliorisi.

Mas o lugar que parece ser o principal pólo difusor das manifestações atuais da arte contemporânea em Assunção chama-se Planta Alta, também conhecido como Larisa Giménez. Planta Alta possui uma papel fundamental na oxigenação do circuito local. Além de exposições, lá funciona um bar e uma programação de shows bastante variada. É um lugar para ver arte e para encontrar pessoas. Se Assunção possui um mercado de arte ainda restrito e conservador, Planta Alta cumpre o papel de mostrar também a produção jovem e não comercial. Além de colaborar na formação e ampliação do público para as artes, a atuação das artistas Bettina Brizuela e Laura Mandelik ajuda a criar um repertório contemporâneo e independente, promovendo mostras de vídeos e trabalhos experimentais. No piso superior do antigo casarão do centro acontecem também palestras, cursos e residências artísticas.

Bar do espaço independente Planta Alta

Visitei alguns artistas de Assunção, espaços institucionais e as principais galerias comerciais como Veronica Torres, que funciona dentro de um Shopping Center; Casa Mayor, da marchand Graciela Mayor; e Galeria Fabrica, pertencente ao também artista e diretor do Museu del Barro, Oswaldo Salerno. Em sua galeria pude ver o já histórico trabalho de Salerno em gravura, seja em impressões tipográficas, que desenvolve desde 1969, seja impressão de peças de roupa ou do próprio corpo. As paredes deste espaço estão todas cheias, como nas Galerias do século XIX. O curioso é que vários artistas podem ser vistos em distintos espaços, não há artistas exclusivos de alguma determinada galeria, ou que sejam representados por elas. Além disso, é comum artistas terem um trabalho mais convencional e vendável nas galerias e desenvolverem suas próprias pesquisas em espaços institucionais.

Há muitas obras disponíveis nas galerias de Assunção de artistas que vão do já legendário Carlos Colombino até os pintores das gerações seguintes, como Emmanuel Fretes Roy, Joaquim Sanches, bem como de artistas iniciantes, com grande ênfase na pintura. Um espaço especial devido ao seu despojamento e informalidade é a Galeria Monocromo, dirigida por Simone Heindrich e Javier Medina, que trabalha apenas com fotografia e promove palestras, exposições e uma vez por mês encontros regados a uma sopa de pescado que reúne cerca de 40 pessoas. A Galeria Monocromo está cumprindo um papel essencial na profissionalização do meio e inserindo a fotografia no mercado de arte da cidade. Entre muitos trabalhos que por lá passaram destacam-se as grandes panorâmicas de Juan Carlos Meza.

Javier Medina e Simone Heindrich, da Galeria Monocromo

Durante minha viagem estive com o coletivo Ediciones de La Ura, do qual participam Fredi Casco, Lia Colombino, Ana Ayala, Marcos Benitez e Javier Palma. A editora publica livros de pequenos formatos de autores locais como Joaquín Morales, Cristino Bogado, Nicolás Granada e dos próprios participantes do grupo, sempre em pequenas tiragens. Ediciones de La Ura, além de publicar livros de poesia e contos que intervém na cena literária local, promove cursos de pintura e gravura. Recentemente o grupo realizou um projeto que discutia fronteiras invisíveis a partir de um conjunto de telas de vídeos que justapõe o ambiente ruidoso do mercado de Ciudad del Este com a o tempo lento da área rural próxima ao Rio Paraná e da tríplice fronteira.

Ediciones de la Ura: Lia Colombino, Ana Ayala e Fredi Casco

Fredi Casco, além de editor, possui um trabalho de artista em que mescla realidade e ficção a partir de fotografias antigas manipuladas com imagens recentes. El “Retorno de los Brujos”  é uma trilogia que aborda a vida diplomática do Paraguai durante a ditadura de Stroessner e os eventos sociais com uma dose de ficção científica. Tudo isso com a estética documental, com interferências de pôsteres e letreiros de revistas antigas.

Marcos Benitez, artista também ligado às Ediciones de La Ura, foi aluno de Lívio Abramo no final dos anos de 1980 e possui um trabalho em fotografia que retoma o desenho e o traçado dos cestos guaranis. Recentemente ele fez uma peça em áudio com textos e poemas em que mistura o guarani e o castelhano.

A dupla Javier Lopez e Erika Meza, que expôs recentemente no espaço Planta Alta, desenvolve um trabalho que discute explicitamente questões sociais e políticas da realidade paraguaia. Em uma série de fotografias em grandes formatos da série “Inforncof” e “Casa Rosada”, a dupla aborda ironicamente a exploração econômica e a pobreza como negócio rentável para grandes empresas.  Javier Lopez e Erika Meza possuem ainda uma série de vídeos em que as relações entre tradições indígenas e o mercado são apresentados com muito bom humor.

Trabalho de Javier Lopez e Erika Meza no espaço Planta Alta

Entre os artistas que ganharam destaque na década passada em Assunção a produção de Sara Leoz merece atenção. Com um ácido senso de humor, Leoz é uma artista intuitiva que cria desenhos espontâneos e narrativas que se aproximam da linguagem das histórias em quadrinhos, sempre com um vocabulário próprio de formas.

Sara Leoz com uma de suas pinturas

O trabalho de Claudia Casarino, artista que já esteve três vezes na Bienal do Mercosul, aborda a tradição paraguaia de bordados e questões de gênero, como no trabalho composto por um conjunto de uniformes de trabalhadores feitos em tule, quase transparentes, como se estivessem desaparecendo. É  de sua autoria também Zoo da América que mapeia as nomenclaturas pejorativas dadas pelos vizinhos às diversas nações do continente.

Em meu último dia no Paraguai estive em Areguá, cidade de artesanato e de cerâmicas, onde pude conhecer de perto o veio indígena da arte do Paraguai. No Caminho parei no Museu Guido Boggiani, na cidade de San Lorenzo, uma instituição privada e sem fins lucrativos dedicada aos estudos etnográficos e arqueológicos das culturas indígenas do Paraguai. Em Areguá visitei El Cántaro: Espacio Cultural Almacén de Arte e também o Centro Cultural del Lago, iniciativa da colecionadora e artista plástica Ysanne Gayet que formou uma coleção que permite a compreensão da história, da cultura e da arte popular de Areguá.

Não podia ter ido embora sem ver de perto o lago de Ypacarai  imortalizado na composição  de Zulema De Mirkin e Demetrio Ortiz, gravada por Caetano Veloso no disco Fina Estampa. Esses são os meus Recuerdos de Ypacarai:

“Una noche tibia nos conocimos
Junto al lago azul de Ypacaraí
Tu cantabas triste por el camino
Viejas melodías en guarani”

O lago azul de Ypacaraí

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